Invisíveis da pandemia precisam de ajuda, alerta Padre Chiera

O fundador da Casa do Menor, Pe. Renato Chiera, denuncia a realidade vivida pelos invisíveis do coronavírus: a população em situação de rua e os moradores das favelas continuam sendo os mais vulneráveis durante a pandemia do Covid-19. “Somos tão invisíveis, me dizia uma auxiliar de enfermagem na rua há 2 anos porque desempregada, que o vírus não nos pega”. A doença atinge “mais os ricos, mas são os pobres que mais morrem”, testemunha o missionário.

Andressa Collet – Cidade do Vaticano

“Eu me pergunto: se esse vírus pegasse somente os pobres teria tanta preocupação? Ou muita gente estaria feliz?”

A reflexão é feita por Padre Renato Chiera, um italiano que vive pelas favelas do Rio de Janeiro há mais de 40 anos e já se definiu um padre de rua. Ao idealizar e fundar a Casa do Menor, na periferia da Baixada Fluminense, há 34 anos, o missionário tocou com as mãos a ferida de uma grande população vulnerável do Brasil que, atualmente, sofre com as péssimas condições em termos de informação, prevenção, acesso ao serviço de saúde e vulnerabilidade econômica para enfrentar a pandemia do Covid-19.

“Não tem mais onde procurar comida! Como higienizar as mãos? Onde ficar em casa? Em casa? Qual casa? No Rio, uma entidade colocou pias, chuveiros, com banheiro. Um cara de rua me falava: ‘eu tenho água somente nas poças do asfalto, quando chove’. O problema grave, eu repito, é se alimentar. As medidas do poder público, o que é que se faz? Tem medidas emergenciais em várias cidades: abrigos estão sendo criados para acolher durante a pandemia, oferecer orientação, nutrição, higiene, além disso, cuidar quem esteja com suspeita de coronavírus ou faz parte do grupo de risco. São Paulo, só pra lembrar, 3 mil pessoas são idosas. As entidades de rua pedem medidas complementares: abrigo social, albergue, utilizando hotéis, fazer o possível. Se pede que agentes de saúde acompanhem, mas esses têm dificuldade, pois não têm nem a proteção suficiente e arriscam também de se infectar ou serem infectados. Muitas medidas foram anunciadas em várias capitais, também no Rio, São Paulo, Brasília: são tendas, containers, estruturas resistentes, escolas, aqui o sambódromo, hospitais de campanha,… Mas, um risco grande é que esses centros de acolhimento se tornem focos de disseminação do contágio.”

A solidariedade espontânea da população

As medidas emergenciais, alerta o Pe. Renato, não resolvem o problema. Por isso a importância de uma grande rede para enfrentar o coronavírus e a pobreza das ruas. “A solidariedade maior vem da população, é a solidariedade espontânea”, afirma o missionário, através de associações de moradores, organizações de favelas, igrejas e pastorais que “distribuem comida, produtos de higiene e material de prevenção quando existe. A Pastoral do Povo de Rua, por exemplo, em São Paulo, faz um trabalho muito bom”.

“A Casa do Menor o que é que faz? Estamos em rede com comunidades terapêuticas e novas comunidades no Brasil afora. ‘Com Deus tem jeito’ é uma rede de entidades de 350 carismas: comunidades, movimentos, grupos pastorais. Em 30 dias foram acolhidos 715 homens, mulheres, crianças em situação de rua. Até o final da semana se esperam 800. Esses acolhidos são estão infectados, mas nas ruas têm centenas de infectados: muitos morrem, mas nem sabem do quê. Na Casa do Menor, os meninos de rua são menos porque nas ruas, hoje, os meninos não ficam, vão para o narcotráfico. Os pequenos ficam com as famílias nas ruas ou nas Cracolândias. O que nós fazemos? Abrimos mais uma casa para adolescentes, geralmente usuários, vindos do narcotráfico. Abrimos duas, três casas para povo de rua que vem de Nova Iguaçu. Fazemos o acompanhamento de cerca de 400 moradores de rua de Nova Iguaçu, com a prefeitura, a Casa de Solidariedade, a Caritas, dioceses, grupos evangélicos. Damos atenção às áreas periféricas, mais pobres, onde temos vários centros comunitários para mais de mil crianças e adolescentes. Damos atenção às famílias dos alunos dos cursos profissionalizantes: são mais de 2 mil. Distribuição de produtos: gel, máscara, cestas básicas para famílias que nos procuram e as famílias dos novos alunos. Acompanhamos o povo da Cracolândia, no Rio, com outras entidades e outras comunidades. E, agora, procuramos acolher o apelo da CNBB para uma ação solidária junto com a Caritas Nacional.”

O raio-x da sociedade brasileira

A população que vive nas ruas, os moradores das favelas e os povos indígenas estão entre os grupos desprotegidos para enfrentar a emergência do coronavírus, lembra o Pe. Renato, que acrescenta: “a pandemia está fazendo o raio-x da sociedade brasileira. Agora, tornou mais visível os invisíveis”:

“São cerca de 70 milhões os brasileiros e famílias que precisam de 600 reais para sobreviver. Sem contar os 30 milhões sem água potável, os mais de 11 milhões que vivem nas favelas. Como fica com os excluídos? Nós somos tão invisíveis, me dizia um, que o vírus não pega em nós, me disse uma auxiliar de enfermagem que há 2 anos está na rua porque está desempregada. O vírus atingiu mais os ricos, mas são os pobres que mais morrem.”

A maior atenção dada a essa classe agora, denuncia o Pe. Renato, não é tanto por amor, mas pelo medo de serem vetores da doença. Não há números oficiais da população de rua porque é difícil de ser mapeada pela circulação intermitente ou até por estar mais escondida. Em 2015, se falava em 100 mil moradores de rua, mas agora, segundo o missionário, o número se multiplicou em todas as partes do país. “Só em São Paulo o governo indica que são cerca de 24 mil” as pessoas em situação de rua, “mas as entidades dizem que são mais 30 mil”.

“Precisamos de ajuda para poder ajudar. A pandemia mostra que a solidariedade não morreu no nosso povo. Terá uma nova humanidade após o coronavírus? É aquilo que esperamos.”

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