Nostra aetate: o documento que abriu o caminho para o diálogo com as religiões

No passado discutia-se sobre a interpretação dos textos, hoje são os próprios documentos do Concílio Vaticano II que estão sendo questionados. Recordemos como surgiu a declaração conciliar que marcou a história da Igreja.

ANDREA TORNIELLI

A declaração conciliar Nostra aetate, aprovada pelos Padres conciliares do Vaticano II e promulgada por Paulo VI em 28 de outubro de 1965, mudou de modo irreversível as relações entre a Igreja Católica e o Judaísmo, na sequência dos passos dados por João XXIII, e também mudou a abordagem do catolicismo em relação às religiões não-cristãs. É considerado um texto fundador para o diálogo com outras confissões religiosas, resultado de um longo trabalho.

Relação única entre o cristianismo e o judaísmo

A parte central do documento refere-se ao judaísmo: “Sondando o mistério da Igreja, este sagrado Concílio recorda o vínculo com que o povo do Novo Testamento está espiritualmente ligado à descendência de Abraão… Sendo assim tão grande o patrimônio espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos”. Palavras que representam o reconhecimento das raízes judaicas do cristianismo e a relação única que existe entre a fé cristã e o judaísmo, como sublinhou João Paulo II em abril de 1986, quando visitou a Sinagoga em Roma. Um tema sobre o qual Joseph Ratzinger, como teólogo também refletiu, e como Bispo de Roma, refletiu na sua visita à Sinagoga de Roma em janeiro de 2010. Na ocasião lembrou que “a doutrina do Concílio Vaticano II tornou-se para os católicos um ponto firme ao qual fazem referência constante na atitude e nas relações com o povo judeu, marcando uma etapa nova e significativa”. O acontecimento conciliar deu um impulso decisivo no compromisso de se percorrer irrevogavelmente um caminho de diálogo, fraternidade e amizade”.

Termina a acusação de deicídio contra o povo judeu

Outra afirmação decisiva no documento diz respeito à condenação do antissemitismo. Além de deplorar “os ódios, perseguições e manifestações de antissemitismo, seja qual for o tempo que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu”, a declaração conciliar explica que a responsabilidade pela morte de Jesus não deve ser atribuída a todos os judeus”. “Ainda que as autoridades dos judeus e os seus sequazes urgiram a condenação de Cristo à morte não se pode, todavia, imputar indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus do nosso tempo”.

O raio de verdade que as outras religiões refletem

Na parte inicial do Nostra Aetate é citado o hinduísmo e o budismo e outras religiões em geral, explicando que elas “lutam para superar, de várias maneiras, a inquietação do coração humano propondo caminhos, ou seja, doutrinas, preceitos de vida e ritos sagrados”. “A Igreja Católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, refletem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens”.

A estima pelos fiéis do Islã

Um importante parágrafo é dedicado à fé muçulmana. “A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e onipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua mãe virginal, à qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do juízo, no qual Deus remunerará todos os homens, uma vez ressuscitados. Têm, por isso, em apreço a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum”.

Paulo VI e os “confessores de fé muçulmana”

Entre os passos significativos dados nos anos seguintes pelos Papas no diálogo com o mundo islâmico, devemos citar as palavras pronunciadas em julho de 1969 por Paulo VI em Uganda, quando o Papa prestou homenagem aos primeiros mártires cristãos africanos, fazendo uma comparação que também associava os crentes muçulmanos ao martírio sofrido pelos soberanos das tribos locais. “Temos a certeza de estar em comunhão com vocês”, disse ele, dirigindo-se aos representantes da fé islâmica na nunciatura de Campala, “quando imploramos ao Altíssimo, que desperte no coração de todos os crentes da África o desejo de reconciliação, de perdão tantas vezes recomendado no Evangelho e no Alcorão”. E Paulo VI acrescentou: “E como não associar o testemunho de piedade e fidelidade dos mártires católicos e protestantes à memória daqueles confessores da fé muçulmana, cuja história nos lembra que foram os primeiros, em 1848, a pagar com a vida por se recusarem a transgredir as prescrições de sua religião?”.

“Descendentes de Abraão”

Em novembro de 1979, ao encontrar a pequena comunidade católica em Ancara, João Paulo II reafirmou a estima da Igreja pelo Islã e disse que “a fé em Deus, professada em comum pelos descendentes de Abraão, cristãos, muçulmanos e judeus, quando vivida sinceramente, é o fundamento seguro da dignidade, fraternidade e liberdade dos homens e o princípio da conduta moral justa e da convivência social”. E disse ainda: como consequência desta fé em Deus Criador e transcendente, o homem está no cume da criação”.

O discurso em Casablanca

Um marco neste caminho é representado por outro discurso de João Paulo II, proferido em agosto de 1985 em Casablanca, Marrocos, diante de jovens muçulmanos. “Cristãos e muçulmanos – disse o Papa Wojtyla – temos muitas coisas em comum, como crentes e como homens”. Vivemos no mesmo mundo, sulcados por inúmeros sinais de esperança, mas também por múltiplos sinais de angústia. Abraão é para nós o mesmo modelo de fé em Deus, de submissão à sua vontade e de confiança na sua bondade. Cremos no mesmo Deus, o único Deus, o Deus vivo, o Deus que cria os mundos e leva suas criaturas à sua perfeição”. João Paulo II lembrou que “o diálogo entre cristãos e muçulmanos hoje é mais necessário do que nunca”. Ela deriva da nossa fidelidade a Deus e supõe que sabemos reconhecer Deus pela fé e testemunhá-lo pela palavra e pela ação num mundo cada vez mais secularizado e, às vezes, ateísta”.

Em Assis com João Paulo e Bento

No ano seguinte, em 27 de outubro de 1986, o Pontífice convocou representantes das religiões do mundo a Assis para rezar pela paz ameaçada, um encontro que se tornaria um símbolo de diálogo e compromisso comum entre crentes de diferentes credos. “A reunião de tantos líderes religiosos para rezar é em si um convite para que o mundo de hoje tome consciência de que há outra dimensão para a paz e outra forma de promovê-la, que não é o resultado de negociações, compromissos políticos ou negociações econômicas. Mas o resultado da oração, que apesar da diversidade das religiões, expressa uma relação com um poder supremo que supera as nossas capacidades humanas”. Comemorando o 25º aniversário desse evento em Assis, Bento XVI advertiu contra a ameaça que representa o abuso do nome de Deus para justificar o ódio e a violência, citando o uso da violência perpetrada pelos cristãos ao longo da história (“reconhecemos, cheios de vergonha”). Mas também observou que “o ‘não’ a Deus produziu crueldade e violência sem medida, o que só foi possível porque o homem não reconheceu mais nenhuma norma e nenhum juiz acima de si mesmo, mas tomou apenas a si mesmo como norma”. Os horrores dos campos de concentração mostram com toda a clareza as consequências da ausência de Deus”.

Do Concílio ao documento de Abu Dhabi

A declaração conciliar Nostra Aetate conclui com um parágrafo dedicado à “Fraternidade Universal”: “Não podemos invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos alguns dos homens que são criados à Sua imagem. De tal maneira estão ligadas a relação do homem a Deus Pai e a sua relação aos outros homens seus irmãos, que a Escritura afirma: ‘Quem não ama, não conhece a Deus’. Carece, portanto, de fundamento toda a teoria ou modo de proceder que introduza entre homem e homem ou entre povo e povo qualquer discriminação quanto à dignidade humana e aos direitos que dela derivam. Essa tradição é lembrada no documento sobre a Fraternidade Humana assinado pelo Papa Francisco e o Grão-Imame de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyeb em 4 de fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, no qual escrevem: “Em nome de Deus que criou todos os seres humanos iguais em direitos, deveres e dignidade, e os chamou a viverem juntos como irmãos entre si, a povoarem a terra e nela difundirem os valores da bondade, da caridade e da paz..

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