Os Papas e o movimento ecumênico

A visita do Papa à Bulgária e Macedônia do Norte foi uma ocasião para consolidar as relações de amizade e propósitos ecumênicos entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Recordamos alguns momentos ecumênicos marcantes de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

Cidade do Vaticano

O encontro entre o Patriarca da Bulgária Neofit e o Papa Francisco no dia 5 de maio na Bulgária, recordou a análoga visita de São João Paulo II ao Patriarca Maxim em 2002, mas também de São João XXIII, que entre as duas grandes guerras foi visitador apostólico na Bulgária.

João XXIII disse Francisco “tinha se afeiçoado muito a este povo ‘simples e bom’ admirando a sua honestidade, a laboriosidade e a dignidade nas provações. Também eu me encontro aqui, hóspede recebido com afeto, e sinto no coração a nostalgia do irmão, aquela nostalgia salutar pela unidade entre os filhos do mesmo Pai, que o Papa João pôde certamente maturar nesta cidade. Precisamente durante o Concílio Vaticano II, por ele convocado, a Igreja Ortodoxa Búlgara enviou os seus Observadores. Desde então, têm-se multiplicado os contatos“.

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Paulo VI e os encontros na Terra Santa

E durante o Concílio foram anuladas as recíprocas excomunhões pronunciadas no Cisma do Oriente entre Roma e Constantinopla, e um dos nove decretos criados pelo trabalho conciliar dos bispos, o Unitatis Redintegratio (“Promover a restauração da unidade”) de 21 de novembro de 1964, é dedicado especificamente ao ecumenismo.

Em janeiro do mesmo ano, o Papa Paulo VI havia realizado sua histórica viagem à Terra Santa, cumprindo um gesto revolucionário no plano ecumênico. Ao regressar ao Vaticano, no dia da Epifania, assim falou aos fiéis e ao Sagrado Colégio.

O Patriarca ecumênico de Constantinopla, Atenágoras, com onze metropolitanos veio ao meu encontro e deu-me um abraço, como se abraça um irmão, apertou a minha mão e conduziu-me, de mãos dadas, ao salão principal onde trocaríamos algumas palavras, para dizer: devemos, devemos nos entender, devemos fazer a paz, devemos mostrar ao mundo que voltamos a ser irmãos. E o Patriarca acrescentava: ‘Diga-me o que devemos fazer, diga-me o que devemos fazer’. Portanto estamos diante desta proposta, deste pedido que para nós se torna um argumento de grande reflexão e ponderação; não devemos nos deixar levar pelas aparências e pelos momentos de entusiasmos; mas é um pedido que pode realmente ser um prenúncio de uma sequência diferente para a Igreja universal do amanhã que hoje se encontra ainda despedaçada em muitos fragmentos.

Também vieram muitos outros patriarcas, vieram os anglicanos, vieram os protestantes, todos para dar um aperto de mão e dizer como podemos nos encontrar em Nosso Senhor. Porém, o momento que me senti mais sufocado pela comoção e pelo pranto foi durante a Missa no Santo Sepulcro, ao proferir as palavras na consagração e ao adorar a presença sacramental de Cristo, onde Cristo consumiu o seu sacrifício”.

A partir do Concílio, o ecumenismo foi constantemente buscado e trabalhado pela Igreja Católica: depois do encontro com Atenágoras, Paulo VI encontrou o arcebispo de Canterbury (1966), o patriarca sírio-ortodoxo de Antioquia (1971) e o patriarca da Igreja Copta-ortodoxa (1973).

João Paulo II viagens e encontros

João Paulo II promoveu a redação de uma série de documentos comuns com a Igreja Anglicana e Luterana, assim como com várias Igrejas do Oriente e as suas múltiplas Viagens Apostólicas, certamente foram ocasião de encorajamento ao conhecimento recíproco. Em Roma, por exemplo, encontrou a comunidade evangélico-luterana em 11 de dezembro de 1983:

Desejamos ardentemente a unidade, e esforçamo-nos por consegui-la sem nos deixarmos desencorajar pelas dificuldades que possam surgir ao longo do caminho… Parece-nos ver surgir ao longe, como uma aurora, neste 500º aniversário do nascimento de Martinho Lutero, o advento de uma restauração da nossa unidade e da nossa comunidade. Esta unidade é fruto do renovamento, da conversão e da penitência quotidiana de todos os cristãos, à luz da Palavra eterna de Deus, e constitui também a melhor preparação para o advento de Deus no nosso mundo.”

Bento XVI, um dos objetivos ecumenismo

Papa Bento XVI também deu passos decisivos no caminho ecumênico. Pode-se dizer que este foi um dos principais objetivos do seu Pontificado. A publicação em russo do seu livro “Introdução ao cristianismo” teve o prefácio escrito pelo metropolita ortodoxo de Smolensk e Kaliningrad, Kirill; a apresentação da tradução russa da Encíclica Spe salvi esteve a cargo do pró-reitor da Academia Teológica Ortodoxa Vladimir Shmalij. Por ocasião das Vésperas da Conversão de São Paulo de 2006, Bento XVI ofereceu uma leitura teológica do caminho ecumênico e aproveitou a ocasião para apresentar a sua primeira Encíclica Deus caritas est:

Quis dedicar a minha primeira Encíclica ao tema do amor, a qual foi publicada precisamente hoje e esta feliz coincidência com a conclusão da Semana de oração pela unidade dos cristãos convida-nos a considerar este nosso encontro, mas também muito mais adiante, todo o caminho ecumênico na luz do amor de Deus, do Amor que é Deus. Se já sob o perfil humano o amor se manifesta como uma força invencível, o que devemos dizer nós que ‘conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele’? O verdadeiro amor não anula as legítimas diferenças, mas harmoniza-as numa unidade superior, que não é imposta do exterior, mas que do interior dá forma, por assim dizer, ao conjunto. É o mistério da comunhão, que assim como une o homem e a mulher naquela comunidade de amor e de vida que é o matrimónio, assim forma a Igreja qual comunidade de amor, compondo em unidade uma multiforme riqueza de dons, de tradições. A Igreja de Roma está ao serviço desta unidade de amor que, segundo a expressão de Santo Inácio de Antioquia, ‘preside à caridade’  Diante de vós, queridos irmãos e irmãs, desejo hoje renovar a entrega a Deus do meu peculiar ministério petrino, invocando sobre ele a luz e a força do Espírito Santo, a fim de que favoreça cada vez mais a fraterna comunhão entre todos os cristãos”.

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